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ESCOLA CLASSE CRIXÁ

LOCAL São Sebastião - DF

ÁREA 5.600 m²

PROJETO Ricardo Pachla e Gabriel Brandalise

ANO 2018

TIPOLOGIA Concurso Público de Arquitetura - CODHAB

INSERÇÃO URBANA

O desafio de desenvolver um projeto de escola para uma região urbana ainda não consolidada inicia-se na análise profunda do projeto urbano do bairro Crixá. O terreno de esquina que abrigará a escola é delimitado por duas ruas de diferentes características: A Avenida Crixá, de alto tráfego de veículos, velocidade, dotada de ciclovia e movimento de pedestres; e a Rua 3, de baixo tráfego, calma e alimentadora da via anterior. Já nas divisas de fundos, delimita-se por um bosque, que será preservado e por um terreno que abrigará outro equipamento público comunitário. Entender de onde as crianças vêm, onde irão morar e como chegarão à escola, é fundamental para as primeiras tomadas de decisões.

O acesso principal se dá junto ao surgimento de uma praça na esquina, onde, por meio da arquitetura, convida as pessoas a se aproximar. As crianças vêm principalmente a pé ou de bicicleta da região norte do bairro, também dos pontos de ônibus próximos à escola ou então de veículos escolares e descem na área de desembarque da Rua 3, sendo assim, não faria sentido outro local, senão na rua de menor tráfego, o acesso principal. Para adequar-se ao desnível desta rua, a escola é dividida em dois níveis, onde a entrada principal e a acessibilidade são garantidas através do nível mais baixo. Conectando a praça e a entrada surge a escadaria que, como uma grande arquibancada, incentiva o convívio entre as crianças e possibilita a realização de pequenos eventos culturais no local.

Pela rua de menor tráfego, é feito o acesso de veículos particulares, carga e descarga e ambulância sem interferir no acesso dos pedestres. O estacionamento é dividido em público e privado, garantindo acessibilidade a todos e facilitando a visita de pais para assuntos administrativos.  Já na rua de alto tráfego, a praça arborizada e com muitos bancos, faz a transição entre a grande movimentação do meio urbano e o impacto da arquitetura no local.

A VEGETAÇÃO E OS TONS CLAROS

As árvores de pequeno porte fazem o sombreamento da praça da rua superior e estão sempre posicionadas próximas aos bancos de repouso e convívio. Elas nascem de rasgos retangulares no piso que por sua vez emolduram as vegetações baixas em tipo capim. A rusticidade deste tipo de planta garante baixa manutenção e seu aspecto natural insere-se no contexto do Cerrado de forma harmônica.

O piso das praças de acesso e de transição mantém o mesmo padrão adotado pelo urbanismo do bairro, de modo que não haja delimitação do que faz parte do terreno e do que é passeio. Já no interior da edificação árvores de maior porte sobreiam e refrescam os pátios internos.

A arquitetura, por sua vez, é marcada pelos tons de areia e cinza, garantidos através dos materiais aparentes, camuflando suas proporções volumétricas na paisagem de solo seco e folhas verdes acinzentadas, características do Cerrado brasileiro.

O VERDE

 

“Seja uma espiga de milho ou uma pinha, primeiro elas são verdes; brotos verdes podem florescer em qualquer cor. Porém, não existem nenhuma planta, nenhuma flor que percorra o caminho inverso – o estágio da imaturidade é sempre verde.”

(Heller, Eva em: A Psicologia das Cores. Como as cores afetam a emoção e a razão, 2000)

Na busca por uma cor unânime quanto a gênero e que trouxesse em sua ambiência a diversão para uma escola de crianças, sem polarizar para extremos de frio ou quente, agito ou calma, é utilizada uma paleta de tons verde. Os tons são divididos em 5, representando cada estágio do aluno nesta escola, onde todos eles compõem a cobertura que serve de elemento articulador e referencial dentro da mesma. Para a comunicação visual e composição com os tons de areia e cinza adota-se o tom de verde pastel. O conjunto todo, define a escola e cria um marco referencial entre os equipamentos públicos comunitários da região.

SETORIZAÇÃO

 

São três diretrizes que formataram a setorização desta escola. Entrar pela área de recreação foi a primeira delas, buscando incentivar o aluno a chegar mais cedo para poder brincar com seus amigos e ambientar a criança ao local antes de começar a aula. A segunda é possibilitar à comunidade do bairro o usufruto desta grande área de recreação em conjunto com auditório e quadra esportiva, isolados do pavimento superior. Por último, facilitar a dinâmica das atividades pedagógicas, concentrando-as todas num mesmo nível. De um lado salas de aula, de outro as atividades complementares e de apoio. A transição entre elas é feita pelas passarelas que deixam a experiência arquitetônica com caráter ainda mais lúdico.

O setor administrativo está posicionado estrategicamente próximo à entrada, garantindo que as atividades de atendimento aos pais e alunos sejam feitas em fluxos distintos das atividades internas da escola, enquanto o setor de serviços foi posicionado aos fundos, permitindo o uso do estacionamento como complemento de suas atividades. A composição dos setores garante o controle total de acessos e a realização de diversas atividades simultaneamente, ou em horários de contra turno, sem que haja conflitos de fluxos.

SISTEMAS CONSTRUTIVOS

 

Em vista da agilidade construtiva e do orçamento disponível, foi definida a escolha dos materiais de acabamento aparente e a fragmentação da estrutura em três modelos que conversam entre si através da modulação estrutural e dos materiais construtivos empregados.O conjunto de salas de aula é apoiado sobre um platô de terra compactada em nível com a Avenida Crixá. As alvenarias são estruturais em bloco de concreto aparente e recebem vigas pré-fabricadas e lajes alveolares. Os blocos de concreto até a 11ª fiada são pigmentados em corante mineral tom areia. Da 12ª a 14ª e as 3 fiadas de bem como as vigas e as lajes alveolares são em concreto aparente. Sobre a laje alveolar a telha metálica faz o fechamento do sistema. O conjunto todo é unificado através de um grande volume em elemento vazado de concreto aparente pigmentado, garantindo privacidade, frescor dos ventos em todas as suas orientações e iluminação natural difusa. As aberturas de enquadramento deste volume são feitas através de molduras de vigas metálicas de pequena seção. 

O conjunto dos demais setores da escola são em pilares pré-fabricados de concreto aparente que se repetem em modulações casando com a as lajes alveolares. Eles cumprem uma série de funções além da estrutural, como: o sombreamento da fachada, a estruturação dos vãos de esquadria, a delimitação da projeção das janelas maxi-ar, a estruturação do guarda-corpo e do brise da fachada oeste, a modulação das alvenarias e a plástica do volume arquitetônico. A vedação é feita em cada pavimento por bloco de concreto aparente seguindo o mesmo critério das salas de aula. Uma viga de pequena seção faz o coroamento dos pilares e o recebimento das lajes. A cada 14,4m um pórtico estrutural trava o sistema e recebe os pilares metálicos da cobertura.

CONFORTO AMBIENTAL

 

Considerando que os ventos predominantes vêm do quadrante norte nos períodos de maior calor e que as salas de aula possuem grandes vãos de abertura para os pátios privativos, optou-se pela posição do elemento vazado e janelas basculantes a favor desse quadrante, sendo assim, durante grande parte do período letivo os ventos mais fortes não impactam na permanente abertura das salas de aula. Para as salas pedagógicas complementares e demais setores da escola, por não possuírem pátios, as mesmas orientam-se no eixo leste-oeste, onde os ventos predominantes duram praticamente todo o período letivo.

Em relação ao sol, nas salas de aula as aberturas principais se voltam para o sul, extinguindo assim a necessidade de elementos de bloqueio solar. As aberturas principais dos demais setores se voltam para oeste, aproveitando a qualidade visual gerada pelo bosque, e por consequência são protegidos por brises e pelo sombreamento que a própria estrutura de pilares gera.

Por fim o período de maior intensidade de chuvas não coincide com o período letivo, permitindo assim uma arquitetura mais livre de fechamentos, onde os corredores principais e as áreas de recreação são protegidos pela grande cobertura metálica articuladora e os corredores de acesso às salas do pavimento superior pela projeção das lajes alveolares em frente as mesmas.

A cobertura por sua vez é composta por combinações de vigas de seção “I” e “C” emolduradas no perímetro por vigas calha. O telhado metálico termo-acústico acontece em proporções e inclinações que não são vistas da rua, nem pelos usuários da escola. Chapas metálicas expandidas pintadas nos cinco tons de verde são utilizadas para composição cromática e ocultamento parcial da composição de vigas. O apoio da cobertura se dá por conjuntos de dois pilares de seção circular que se repetem a cada 14,4m alinhando-se com os corredores de acesso as salas de aula e com a estrutura de travamento do volume de pilares pré-fabricados. O conjunto todo atiranta três passarelas que fazem a comunicação entre os blocos e com o nível inferior.

DE DENTRO PARA FORA

 

Grande parte da população é acostumada desde pequena com ambientes austeros de sala de aula, ora muito frio, ora muito quente e sempre de cortinas ou brises fechados. Somada essa às inúmeras más experiências arquitetônicas vividas, constroem-se cidades compostas por cubículos e mais cubículos insalubres, que são aceitos sem questionamento por estes que nunca tiveram acesso a outra alternativa de arquitetura.

Assim sendo, a ambientação da sala de aula acaba sendo foco majoritário das atenções neste projeto. Todas elas contam com abertura e integração total com pátios privativos, garantindo assim intensa luminosidade natural em todas as estações do ano. O frescor se dá pelo uso do elemento vazado que faz o fechamento do pátio em contraposição às janelas basculantes situadas sobre armários privativos. A repetição do conjunto de elemento vazado, corredor, janela basculante, sala e pátio sucessivamente permite a ventilação cruzada em todas as salas de aula.

Além das qualidades de conforto ambiental providas pelo pátio, um leque de atividades e metodologias de ensino diferenciadas podem ser desenvolvidas pelos professores. Aulas e experiências didáticas que podem ser praticadas colocando em dúvida os conceitos de dentro e fora, onde haverá um espaço único e amplo, metade coberto e outra metade não.

Não queremos delimitação entre o agreste e o antrópico, por isso a adição de vegetação no pátio. É de suma importância que as crianças tenham contato constante com a natureza para que seu desenvolvimento pessoal seja aliado aos cuidados e a paixão por esta.

 

Esta arquitetura nasce primordialmente de dentro pra fora, em contato com a natureza e priorizando a salubridade. Essa filosofia é a mensagem que queremos passar para a o futuro de nossa sociedade.